Vai com Deus

Em uma manhã de domingo, ao acordarem, a família da casa n.º 41 ouviu um ruído vindo da garagem. Ao chegarem lá, encontraram uma gata que miava descontroladamente, e que vagava o espaço como se estivesse procurando algo. Ao vê-la, o instinto imediato da mãe foi de espantá-la, ela não queria um bicho de rua dentro da sua casa. No passado, todas as vezes que seus filhos pediam por um novo animal de estimação, ela negava e se irritava com o pedido, principalmente porque as responsabilidades do cuidado ficariam a seu encargo. Estava satisfeita com a cachorra e o gato preto que já tinham, e por isso não queria mais nenhum. Pelo menos, era isso o que argumentava com seus filhos, porque na realidade, essa repulsa tinha uma origem mais antiga. Toda essa situação, remetia a um papagaio que ela cuidou durante toda a infância, e parte da vida adulta. Um tempo depois que teve seus três filhos, o pássaro desapareceu. Ela nunca superou. Desde então, não sabe se é capaz de suportar a perda de outro animal depois de investir tanto amor e carinho. 
Assim, quando o filho caçula percebeu que a mãe expulsava a gata, rapidamente interviu, dizendo: "Não mamãe! Vamo dá pelo menos comida e água. Olha de magra que ela tá". Não podendo discordar, a mãe buscou ração, e depois deixou a gata na garagem, esperando que ela encontrasse seu próprio caminho de volta. Acontece, que ela ficou. 
A garagem, ficava entre o jardim e a casa, o terreno era espaçoso, tornando-o um ótimo espaço pra as crianças brincarem, e consequentemente, pra que a gata pudesse explorar. Depois de comer, perambulou um pouco pelo lugar, achou um cantinho para dormir, e lá se aconchegou. Dando falta da gata, os dois irmãos mais novos começaram a procurá-la. Ao encontrá-la, apaixonaram-se por sua fofura. Apesar de suja, a gata era bonita. Tinha pelos brancos com alguns tons de cinza e preto que cobriam suas costas e parte da cabeça, e eram muito macios. Vendo-a deitada no chão, tiveram a ideia de construir uma caminha de papelão, pra que ela se sentisse mais confortável. Feito isso, resolveram carregá-la até a cama. Com muita delicadeza, o caçula puxou seu corpo para si, e ao acordar, a gata imediatamente se assustou e começou a se mexer descontroladamente e a miar o mais alto que podia. No desespero, o menino correu para alcançar a cama a tempo, e segurou ela mais forte pra que não escapasse, e ao fazer isso, percebeu seu coração disparado. Logo depois que  foi colocada na cama, a gata ficou mais tranquila, mas os dois irmão precisaram se afastar pra ela permanecesse assim.
Foi então que a irmã do meio perguntou: "Será que ela não foi judiada?", a dúvida permaneceu no ar, mas o caçula não conseguiu pensar em outra possibilidade. Enquanto corria com a gata em seu colo, ele sentiu o pavor percorrendo todo seu corpo. O pelo ficou arisco, o rabo mais grosso, as unhas afiadas, o coração descontrolado. Aos poucos, os irmão se aproximavam, e ao chegarem perto, deixou que ela cheirasse suas mão, para depois fazer carinho. Ela se acalmou, e o que era antes miados agoniantes passou a ser ronronados que denunciavam conforto.  
A gata, ali foi ficando. Aos poucos, começava a frequentar outros espaços da casa, como os quartos e a sala, mesmo com a insistência da mãe de limita-la a garagem. Até o pai, que se mostrava indiferente a toda essa situação, considerou ela adotada pela família. Logo que estabelecida nesse lar, seus novos donos sentiram a necessidade de ter um nome para poder chama-la. "Maria Bonita" disse o caçula. E assim foi decido.
O tempo passou, e a irritabilidade da mãe tornou-se opaca. Mas sempre voltava a aparecer, quando a gata mijava no sofá, na cama ou na mochila da escola das crianças. Como sempre, era ela que limpava tudo. 
Por três vezes depois que a gata chegou, a família precisou mudar de casa. Os problemas financeiros se agravaram, e perceberam que não podiam mais arcar viver naquela grande casa. Na primeira vez, uma dúvida surgiu: "Será que a Bonita vai junto com a mudança, ou a gente vai deixar ela aqui?".  Decidido que ela acompanharia a família sempre, de todas as mudanças ela participou, e nunca mais foi abandonada. Na terceira e última, a família mudou de estado. Procuravam uma vida nova, que por sorte, não seria tão aflita. Chegando lá, apesar de ser um lugar diferente, o lar era o mesmo. Compunha ele os mesmos três filhos, mãe e pai. Mas o tempo, esse foi o que mais mudou.
Seis anos se passaram desde a primeira aparição da gata na garagem. Os irmãos mais novos saíra de casa para estudar na faculdade, e o mais velho começou a trabalhar. O lar se esvaziou. A gata vagava pelos quartos, procurando por eles, e miava triste pelos cantos. Nas férias, quando todos se juntavam, toda sua carência era suprida. Diferentemente de antes, ela não tinha mais medo de ser carregada, seu coração não batia tão forte quanto antes.
Em um desses dias, uma macha apareceu em seu pescoço. Cogitaram que ela havia brigado com o gato do vizinho. A mancha inchou, e tornou-se bem volumosa. A mãe, que já previa o pior por conta de seu histórico com animais domésticos, levou a gata várias vezes a diferentes veterinários. O recomendado, era a aplicação de uma pomada e antibióticos. Mas continuava crescendo, e quanto mais crescia o tumor, proporcionalmente subia a preocupação familiar. No entanto, os remédios surtiram efeito e logo esse abscesso foi diminuindo. 
Acabado as férias, a irritação da pele voltou. A gata lambia e se coçava constantemente, causando infecção na ferida. Outros veterinários foram consultados, mais remédios e pomadas prescritas, e a esse ponto, a mãe pedia conselho a suas irmãs. Não queria que a história se repetisse. Por motivos de pandemia, a família, mesmo que fora do tempo de férias, voltou a se reunir. Carinhos e agrados voltaram a ser dados a gata, porém com menos frequência. Ela usava um cone no pescoço para não se lamber, e por isso estava suja tanto quanto da primeira vez que foi encontrada. Fedida e ferida, ela não podia mais deitar-se no sofá ou frequentar os colos dos donos que a amavam. Ela também não comia direito, emagreceu muito e pouco tempo. Fraca e debilitada, não andava e nem explorava o local novo que em que vivia. A família tentou de tudo, mas a esse ponto a agonia prevalecia e nada mais podia ser feito.
Em uma manhã, a mãe acordou cedo para ir caminhar. A nesse horário ela geralmente escutava os ruídos fracos da gata pedindo comida. Dessa vez havia silêncio. Ao chegar no jardim, onde ela geralmente ficava, encontrou-a desvanecida. A gata finalmente encontrou o que procurava, e foi embora. Quando a notícia chegou ao caçula, ele escreveu em um papel “Maria Bonita, esposa de Lampião, guerreira. Vai com Deus!”, e enterrou junto de seu corpo. A família chorou, e a perda foi trágica para a mãe, que assistiu a gata andar direção ao um novo lar.

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