Homens
Entramos no carro e pegamos a estrada
A única coisa que preenchia o silêncio é a voz do Google Maps ao narrar o caminho a ser percorrido
Depois de uns 50 minutos ele liga o rádio
Finalmente trocamos algumas palavras
E ele compartilha seu gosto de escutar notícias logo pela manhã
A viagem está cansativa
O carro chacoalha muito
Esta chovendo também
Agora o rádio começa a falhar
E novamente
O único som que preenche é aquela voz robotizada
Que dessa vez fala bem menos do que quando estávamos dentro da cidade
Além disso
O barulho que a janela faz quado o vento passa por ela, bem agudo, é o que substitui as conversas que deveríamos ter
Ele dirige devagar
Até um caminhão ultrapassa o nosso carro
Achei cômico
De vez em quando ele faz alguns comentários
"Nossa, e essa chuva que não para nunca!?"
"São 74km de distância, vamos chegar lá às 10hrs"
"Queria comprar um carro desse da frente aí ó, bem espaçoso!"
Talvez para preencher o vazio do carro
Talvez para gerar alguma intimidade
Ou só porque esse é jeito dele mesmo
Assim como quando assistimos filmes juntos, e ele não para de falar
No carro é assim também
Precisa narrar tudo o que está acontecendo
Coisas de gente velha
Já disse isso pra ele uma vez
Foi engraçado sua reação
Às vezes, me sinto na obrigação da dizer alguma coisa também
Não consigo
Não tenho o que falar
Sinto que essa cena é digna de um filme dramático
Daquelas que tem muitas partes silenciosas e paradas
Que por si só já dizem muitas coisas
E que aliás, eu amo
Estamos a poucos quilômetros do nosso destino
Passamos pelo pedágio
E novamente, somente a voz dele ecoa dentro do carro
Mas dessa vez, em resposta a funcionária diz
"Você tem 5 centavos?"
Ele responde que sim
Mas quando vai entrega-la
Derruba no chão
E fica todo desconcertado, porque não consegue alcançar a moeda
Sua barriga, que é um pouquinho grande de mais, o impede de pega-la
Vendo essa cena toda eu dou uma gargalhada
E percebo que pela primeira vez nessa viagem, regi a alguma coisa que ele fez
Continuamos na estrada
Agora eu me pergunto no ele está pensando
"O que será que ele pensa de mim?"
Lembro-me da cena de hoje mais cedo
Antes de entrarmos no carro
Quando ele foi me acordar
Eu me levanto, já com raiva porque odeio acordar antes das onze
E ele me pergunta, logo depois de eu me vestir
"Você não vai de bermuda?"
E grossamente eu respondo
"Por que que eu vou de bermuda se eu tô com frio?"
Ele sai do meu quarto
Depois ouço ele comentar
"Ele já tá estressado hoje, acordou rabugento"
Fico pensando na cena
Não sei
Não sei o que ele pensa de mim
E também acho que nunca vou saber
Pois somos homens
E homens não falam
Especialmente quando são pai e filho
A única coisa que preenchia o silêncio é a voz do Google Maps ao narrar o caminho a ser percorrido
Depois de uns 50 minutos ele liga o rádio
Finalmente trocamos algumas palavras
E ele compartilha seu gosto de escutar notícias logo pela manhã
A viagem está cansativa
O carro chacoalha muito
Esta chovendo também
Agora o rádio começa a falhar
E novamente
O único som que preenche é aquela voz robotizada
Que dessa vez fala bem menos do que quando estávamos dentro da cidade
Além disso
O barulho que a janela faz quado o vento passa por ela, bem agudo, é o que substitui as conversas que deveríamos ter
Ele dirige devagar
Até um caminhão ultrapassa o nosso carro
Achei cômico
De vez em quando ele faz alguns comentários
"Nossa, e essa chuva que não para nunca!?"
"São 74km de distância, vamos chegar lá às 10hrs"
"Queria comprar um carro desse da frente aí ó, bem espaçoso!"
Talvez para preencher o vazio do carro
Talvez para gerar alguma intimidade
Ou só porque esse é jeito dele mesmo
Assim como quando assistimos filmes juntos, e ele não para de falar
No carro é assim também
Precisa narrar tudo o que está acontecendo
Coisas de gente velha
Já disse isso pra ele uma vez
Foi engraçado sua reação
Às vezes, me sinto na obrigação da dizer alguma coisa também
Não consigo
Não tenho o que falar
Sinto que essa cena é digna de um filme dramático
Daquelas que tem muitas partes silenciosas e paradas
Que por si só já dizem muitas coisas
E que aliás, eu amo
Estamos a poucos quilômetros do nosso destino
Passamos pelo pedágio
E novamente, somente a voz dele ecoa dentro do carro
Mas dessa vez, em resposta a funcionária diz
"Você tem 5 centavos?"
Ele responde que sim
Mas quando vai entrega-la
Derruba no chão
E fica todo desconcertado, porque não consegue alcançar a moeda
Sua barriga, que é um pouquinho grande de mais, o impede de pega-la
Vendo essa cena toda eu dou uma gargalhada
E percebo que pela primeira vez nessa viagem, regi a alguma coisa que ele fez
Continuamos na estrada
Agora eu me pergunto no ele está pensando
"O que será que ele pensa de mim?"
Lembro-me da cena de hoje mais cedo
Antes de entrarmos no carro
Quando ele foi me acordar
Eu me levanto, já com raiva porque odeio acordar antes das onze
E ele me pergunta, logo depois de eu me vestir
"Você não vai de bermuda?"
E grossamente eu respondo
"Por que que eu vou de bermuda se eu tô com frio?"
Ele sai do meu quarto
Depois ouço ele comentar
"Ele já tá estressado hoje, acordou rabugento"
Fico pensando na cena
Não sei
Não sei o que ele pensa de mim
E também acho que nunca vou saber
Pois somos homens
E homens não falam
Especialmente quando são pai e filho
Davi Rodrigues
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